Estou aqui, sentado no chão frio, num quarto vazio, sons da minha cabeça ecoam sem parar, tudo o que eu era apegado foi-se embora, se afastou, disse adeus. Ainda bem que tenho a escrita, escrevi nas paredes do meu quarto sonhos que talvez não possam ser concretizados, sonhos lindos, que muitas pessoas gostariam de sonhar juntas. As pessoas, ah, as pessoas... ora são amigos, ora são estranhos, que querem te ver no pó.
Fechei a janela do quarto, pra me sentir mais sozinho ainda, pra nenhum vento entrar. Está frio, e com isso os problemas parecem ser mais difíceis ainda de conseguir vencer, tudo se torna cinza, obscuro, gelado.
Mas ainda bem que eu tenho como escrever...
Mesmo que alguém nunca leia meus textos, poemas, reclamações, ainda bem que eu posso falar com eu mesmo, sou totalmente amável, por fora e por dentro, eu sei que sou. Mas como o mundo e as pessoas estão se tornando cada vez mais destruidoras, acabam não tendo a sensibilidade para entender o meu olhar, entender o que eu escrevo, entender o que eu digo...
Dias atrás, estava eu e meu cachorro Ruffles (sim, nome estranho para um cachorro) sentados na frente de casa, vi uma mulher passar, carregando várias sacolas de mercado com muitas coisas dentro, uma estava quase rasgando. Aquela mulher aparentava ser viúva, não sei porque, mas eu via no semblante dela que ela já amou muito alguém, e esse alguém se foi, talvez não do jeito que eu pense, então sei lá, resolvi ajudá-la, pois posso ser sozinho e aparentar ser chato, mas se tem uma coisa que eu não sou: é mal educado! Ruffles me acompanhou até ela para eu poder oferecer ajuda e ela aceitou piscando um olho e sorrindo suavemente. Sorte minha e dela que a casa dela estava pertinho, assim eu não precisaria trocar tantas palavras com ela. Ela apenas perguntou qual era o nome do cão que estava nos seguindo, e eu disse que era meu e que se chamava Ruffles, e ela disse que já teve um cão muito parecido com o meu. Perguntei se ela estava bem e ela me respondeu com um tom triste que estava ótima, logo em seguida ficamos em silêncio e já estavámos em frente a casa dela, ela ainda num tom triste disse obrigada, e eu apenas sorri, me virei, e voltei para casa junto com o Ruffles. Me arrependo de não ter trocado mais palavras com ela, de não ter perguntado o porque dela aparentar estar triste.
Fico sentado no chão gelado do meu quarto, pensando o que houve com a vida daquela mulher, e porque aparentava ser tão triste, então me veio a cabeça que talvez eu também aparente ser triste, e aparente ainda mais ser sozinho. Talvez nossas vidas sejam parecidas, mas ao mesmo tempo, diferentes. Talvez eu não deva me preocupar com a vida daquela mulher.
Comecei a escrever um novo conto, e passei o resto da tarde cinza ali, sentado no chão, com o notebook no colo e um copo de leite puro do meu lado.
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